Keila Abeid | Muito Prazer

Como sobreviver a quarentena

Tenho refletido muito esses dias.

Sobreviver a esse distanciamento social causa efeitos diferentes em cada um de nós. E é normal, cada um tem uma maneira de lidar com as crises. Mas pra mim, e acredito que pra mais algumas pessoas, o desafio é conviver com o nosso eu. Convivemos com nós mesmos, mas sempre com a interferência dos outros. Estamos sempre saindo, cumprindo eventos sociais ou de trabalho, dividindo momentos com a família ou amigos. E de repente nos vemos obrigados a convivermos exclusivamente com nosso eu.

Veja bem, essa é a visão de uma mulher solteira e sem filhos, que divide a casa com os pais, mas que ainda assim tem um espaço reservado. Essa está sendo a minha experiência. Sei que a realidade de muitos com crianças em casa, famílias grandes, ou diversas outras situações é diferente, mas aqui estou falando da minha experiência.

Pois bem, como eu já tinha dito em outro post, passei por várias fases já logo nos primeiros dias, e o primeiro impulso foi o de querer fazer tudo o que me aparecia pela frente. Claro que deu ruim. Pra saúde do meu corpo e da minha mente. Daí eu parei. 
Resolvi entender que o corpo e a mente precisavam assimilar a nova realidade, e eu ia ter que iniciar um relacionamento intenso com uma das pessoas mais difíceis e complicada que eu conhecia: eu.

Louco isso, comecei a questionar tudo. O meu trabalho, meus relacionamentos, meus gostos, minhas vontades, buguei totalmente. Mas agora sinto que estou flertando com o equilíbrio. Comecei a perceber coisas que realmente eu gosto e que podem me fazer feliz, como por exemplo usar fio dental ( o do dente mesmo) . Parece bobagem né? Mas imagina vc parar um momento e sentir aquele alivio do pedaço de carne preso no dente lá do fundo, saindo. Pequenos momentos de auto cuidado, começaram a ter outro significado, porque a gente depende deles pra sobreviver. Quando a gente fala em auto cuidado, a gente pensa naquele spa day cheio de essências incríveis regados a champanhe. E o meu momento foi com fio dental regado com listerine. Pode ser viagem minha sabe? Pode ser efeito do isolamento, mas ressignificar as coisas da minha rotina é o que tem me ajudado a sobreviver a essa pandemia. 
Não vou falar da música nesse post. Ainda não estou preparada, pois é muito assunto, mas ela tem estado comigo todos os dias, em diferentes situações e de diferentes formas. Acredito que falarei sobre isso com mais detalhes em outro texto. Mas todas as artes tem me trazido momentos de paz no geral, desde a literatura até os doramas no Netflix (uma hora faço uma lista).

Terminando minha reflexão do dia, penso o seguinte:

1. Sou grata por estar sobrevivendo a essa pandemia 

2. sou grata por ter os meus com saúde 

3. as pequenas coisas contam

4. aprendi que não preciso de muita coisa pra viver (uma hora falo como joguei muita coisa fora)

5. A arte é essencial

6. a música tem sido vital

7. Peço a Deus que nos guarde e cuide dos que estão enfermos ou perdendo queridos .

8. Aguardo para entender minha responsabilidade no mundo com o próximo após a pandemia

Me contem como está sendo esse período pra vocês !

Um beijo 

Keila Abeid

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2 comentários

  1. Ester
    4 de maio de 2020

    Oi, Keila!
    Vc falou que tá questionando vários aspectos da sua vida. Acho que é isso que muitos de nós estamos fazendo, e de uma forma bem orgânica. Lógico que esse movimento mental é único pra cada pessoa, e não cabe a ninguém julgar o processo do outro, mas sim respeitar e acolher. Não quero trazer um otimismo idealizado, romântico, mas acredito sim que esse momento pode ser uma oportunidade pra nós, como também costumo ver oportunidades em todos os momentos da vida.
    Eu também me vi questionando tudo isso, principalmente as minhas relações com as pessoas ao meu redor (familiares e amigos) e comigo mesma. Vejo muitos comentários entre as pessoas da minha faixa de idade (20 e poucos anos, estudantes agora sem aulas, etc) dizendo que já conseguiram se conhecer bem nessa quarentena, e descobriram que são um saco, ou algo do tipo, com um tom de incômodo e impaciência, e por isso não se aguentam mais. Claro que isso vem num contexto de piada, brincadeira, mas vejo sinceridade e até um desabafo nessa afirmação. Acho interessante como é difícil pra gente em geral lidar com essas partes “sombrias” de nós mesmos, e acho que é porque não estamos acostumados com isso, e é difícil de lidar ou até aceitar quando encontramos problemas assim tão perto de nós. Que nem um vírus, o mal tá muito próximo, dentro de nós e vivendo às custas da nossa própria existência.
    Mas também acho q isso é uma oportunidade. É doloroso, claro! Mas pode ser uma cura também. Pode ser a percepção de questões que tavam lá escondidas, que não foram criadas pela pandemia, mas ficaram visíveis agora que não tem um dia-a-dia agitado pra encobrir tudo.
    Eu, por exemplo, aceitei que preciso mesmo fazer terapia. Mas não por estar mentalmente destruída como efeito colateral da pandemia. É por curiosidade e autocuidado: preciso de alguém pra conversar sobre as coisas que eu percebi e descobri esses dias sobre mim e minha relação com as pessoas. E peguei abuso também de um povo que percebi que não tava me fazendo bem, mas eu continuava próxima pelo (por vezes) perigoso costume.
    Claro que tem uns surtos no meio do caminho, umas bads, uns sentimentos ruins, estranhos. Mas isso não define nossa vida. Somos maiores que isso, maiores do que os estragos desse momento estranho nas nossas cabeças. E às vezes precisamos de ajuda pra perceber isso, pra ficar bem com tudo isso, e não vejo problema! Acho incrível que existam profissionais, pessoas, formas de pensar e agir que nos levam a esse caminho.
    Agora os disclaimers:
    – Não trouxe o aspecto gigante que paira, que é o próprio motivo pelo qual estamos em isolamento. Não é como se a única questão fosse ter tempo agora pra ficar sozinhos com nós mesmos refletindo. Lógico que tem o vírus por aí, o medo de ser contaminado, de contaminar, da doença, da morte. E também as restrições necessárias da nossa liberdade, que também pesam na cabeça. E a bagunça rolando na nossa política e economia, o sufoco do sistema de saúde.
    – As realidades das pessoas são diferentes! Então oq falo aqui não tem a intenção de ser uma crítica ou cobrança de produtividade mental e auto conhecimento e crescimento incríveis. São apenas observações, e a forma como eu, pessoalmente, tenho lidado com isso tudo (que também não considero ideal rs, mas é o melhor que posso fazer nesse momento).

    Por fim, passar fio dental é muito bom mesmo. Não vamos deixar os outros dizerem pra a gente o que deve ser bom e relaxante pra nós. Autocuidado não diz respeito apenas a cuidar da estética e se sentir linda com isso (por que se sentir bonita só depois de cumprir determinados “rituais” pregados por aí por blogueiras e afins?). Autocuidado é também passar fio dental, ler um livro q vc nunca leu por sempre priorizar outras atividades, ouvir um disco novo, descobrir artistas, tomar um banho um pouco mais demorado e relaxante, cultivar boas relações, preparar uma boa comida. Enfim, fazer o que te faz bem! Mas isso vc já sacou!

    Falei muito, mas é isso. Amei seu texto!

    • keilaabeid
      4 de maio de 2020

      Adorei a Reflexão Ester! Não falou muito não, adoro suas interações! Seja sempre bem vinda! 🙂
      E sobre a terapia, eu adoro, e me faz muito bem, independente do momento que esteja. As descobertas são sempre bem vindas!

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