Keila Abeid | Muito Prazer

Pra quem você faz música?

Em tempos de pandemia tenho refletido o tempo todos, sobre diversos assuntos. Mas principalmente sobre a minha carreira e jornada na música. Como foi até aqui e o que pretendo daqui pra frente.

Quando a gente escolhe uma vida na arte, automaticamente a gente abre mão de algumas coisas para abraçar outras. A gente sabe que a profissão de artista, músico, cantor, não é a das mais estáveis que existe, principalmente nessa nova realidade que estamos vivendo. Contudo ela é necessária e pode ser muito gratificante. Nunca se falou tanto da importância da arte como nos últimos dias. É o que tem nos salvado.

Mas iniciei esse post como uma outra reflexão. Pra quem a gente faz nossa música?
Parece uma pergunta simples, mas não é.

Veja bem, quando estamos trabalhando com música, nem sempre o desenvolvimento artístico é a principal meta. Muitas vezes trabalhamos com objetivos bem funcionais, música para determinados fins que deve apresentar determinadas características. Música pra filme, música pra comercial, música  para alguma festa, as vezes a gente trabalha pro cliente. Tem também a parte educativa. Quando a gente ensina música, baseado na carreira que conquistamos. E junto com essas e muitas outras possibilidades vem o desenvolvimento artístico. Aí que vem a reflexão de minha pergunta.
Pra qualquer um dos fins que escolhemos quando trabalhamos com música, não tem escapatória, devemos estudar e nos preparar para sermos bons profissionais sempre. Mas quando falamos do desenvolvimento artístico, temos que pensar que além do desenvolvimento técnico, precisamos do desenvolvimento pessoal. Precisamos entender porque fazemos música e pra quem. Temos que trabalhar nossa verdade dentro da arte. Em forma de sons e palavras. E aí vem todo nosso repertório de vida, desenvolvimento de personagens, conhecimentos técnicos, estudos, tudo junto. Todas essas informações combinadas, naquilo que desenvolvemos no nosso fazer de música.
Mas voltemos a nossa pergunta inicial: pra quem estamos fazendo música? Pra algum público específico? Pra impressionar alguém? Pra agradar nossos professores? Pra fazer parte de uma comunidade? Pra quem e pra que?
Aqui entra minha reflexão, quando comecei estudar eu tinha na cabeça que deveria ser a melhor, no sentido de competição, e queria sim agradar aqueles professores,  colegas, músicos que eu mais admirava. Não digo que isso foi de tudo ruim, pois me moveu a estudar o máximo que eu conseguia. A questão é que na minha cabeça, o máximo não era mais suficiente, e eu me sentia sempre pra trás e excluída (coisas da minha cabeça) , mas isso me impulsionava a querer saber mais e buscar mais, mas eu acabava entrando num ciclo vicioso, pois nada do que eu fazia nunca estava bom. E o que aconteceu? Veio a frustração, e a frustração é paralisante. E aí, tudo aquilo que eu mais temia, que era me sentir excluída, e não boa o suficiente, acabariam acontecendo.

Demorou um tempo e muito amadurecimento pra eu entender que não era uma competição. E ser a melhor no que eu fazia, tinha a ver com fazer as coisas que eu me propunha com excelência, dedicação e seriedade, mas não tentar ser melhor que alguém. Mas simplesmente ser a melhor que eu podia ser. Dentro das minhas limitações. Essa consciência começou a me trazer liberdade no fazer música, no ser artista, e na possibilidade de mostrar a arte que é verdadeira pra mim. Inclusive na área de improviso vocal, que pra mim sempre foi um problema. Imagine que se expor ao improviso, é inclusive se expor ao erro, mostrar vulnerabilidade, então eu era travada ao extremo e acabava não improvisando. Até que eu entendi que podia aprender com os erros, e que improviso era justamente mais uma forma de eu me expressar com a música, e não impressionar ninguém. Foi assim que isso começou a virar arte pra mim.

Cada dia na música é um aprendizado, e tenho me sentido cada vez mais livre e satisfeita com a música em minha vida. Acordei com vontade de dividir essa reflexão com vocês …

 

 

 

2 comentários

  1. Ester
    21 de junho de 2020

    Adorei o texto, Keila!
    Eu comecei a aprender violão com uns 9 ou 10 anos de idade. Meu pai me ensinou os acordes mais básicos e as noções de intervalo. Mas todo o resto de teoria musical aprendi sozinha, pesquisando na internet, aprendendo com os colegas, etc. Vc pode imaginar q nao foi um estudo nada organizado e, portanto, não muito produtivo considerando o tempo que levou. Parei de tocar com uns 12 anos, sentia q não evoluía muito (falta de disciplina é uó), mas ainda lembrava de todos os acordes que tinha aprendido (só o formato msm, pq a ideia da construção do acorde eu não tinha). Em 2017, entrei na faculdade (q não foi de música) e no segundo período descobri que tinha um projeto de extensão chamado Música nas Enfermarias, no qual grupos de alunos vão levar música às pessoas internadas e seus acompanhantes no nosso hospital-escola-segunda casa. Aquilo me interessou muito, porque, apesar de não saber muito de música, eu sempre adorei viajar na música, prestar atenção aos sons, ver a forma que os músicos tocam e que os cantores interpretam. Desde criança eu queria cantar, e achava q talvez tivesse jeito, mas sempre tive muita vergonha, medo de não ser boa, etc. E aí quando descobri esse projeto, anos depois, tudo isso voltou. Afinal, eu ia entrar pra cantar, pq o meu violão tava mais enferrujado do que o Mate dos Carros. Na primeira vez que fui, os integrantes mais velhos do grupo tavam escolhendo o repertório antes da gnt entrar na enfermaria, e escolhendo os tons (a gnt não tem mto tempo pra ensaio, ent é na hora, antes de entrar), e uma das meninas cantando bem bonito, o rapaz do violão também… E aí eu fiquei super acanhada, cantava tão baixinho que nem eu mesma conseguia me ouvir. Nessa época eu não conhecia nada a minha voz, tinha bem mais dificuldades com afinação do que hoje, minha voz era pequena, sem volume, sem brilho. E ainda tinha o nervosismo de primeira(s) vez(es). O tempo foi passando e com a prática mais frequente (mas com 0 de orientação profissional), minha voz foi crescendo mais, fui melhorando a afinação aos poucos. Paralelo a isso, a vivência no projeto me fez voltar a pegar no violão, e foi depois daí que eu aprendi a ler cifras (nível basicão). De 2017.2 pra cá, vim pesquisando sem método ou disciplina sobre teoria musical. Só há alguns meses que eu vim descobrir o que era campo harmônico, e só há poucos meses eu tenho me aventurado em harmonias em pouco mais trabalhadas, com mais tétrades e mais acordes. No ano passado, meu pai (que é contrabaixista, mas não trabalha com música) chamou um baterista e uma guitarrista pra formar uma banda, 100% por lazer e hobbie. E eu cantava. E nem aquecer a voz eu sabia. O nível musical do projeto na faculdade é bem iniciante amador, a gnt faz no lema do “o que vale é a intenção” (embora meu grupo se empenhe um pouco mais pra evoluir musicalmente). Já na banda, senti que exigia mais qualidade de mim, e foi ai que eu fui fazer aula de canto. Fiz 1 mês e meio de aula com um professor ruim. E ainda bem que foi só isso, pq se não hj eu estaria na fono tratando as minhas pregas vocais… Mas segui tentando melhorar pelo projeto, e foi aí que encontrei o universo magnífico dxs professorxs de canto na internet (inclusive vc). Aí comecei a aprender várias coisas que não fazia a mínima ideia da existência, mas ainda falta a disciplina de praticar pra ter o resultado. Enfim, essa é a parte mais “técnica” da minha experiência com a música. Mas eu acho que o que vale mesmo são as experiências que eu tenho a felicidade de viver como intergrante do Música nas Enfermarias. Nós estudamos para tratar pessoas doentes, e na nossa formação lidamos tanto com doença que precisamos toda hora ter cuidado pra sempre olhar mais para a pessoa com a doença do que pra doença em si. Porque na verdade é isso que importa. Quando vamos atuar pelo projeto, podemos nos desconectar desse lado médico técnico e nos conectar com a humanidade dessa relação. Estamos ali de jaleco só por questões de higiene e identificação, mas tamo indo mesmo é pra cantar aquele forrozin que Dona Maria de Caruaru gosta e nunca imaginou ouvir num hospital em Recife. Eu me sinto muito privilegiada por viver isso tudo, poque nós entramos em contato com emoções humanas vindas de pessoas vivendo, muitas vezes, os piores momentos das suas vidas. E não somos nós quem evocamos aquelas reações todas, aqueles choros, aqueles sorrisos, aquelas lembranças. Nós somos apenas condutores da verdadeira estrela, que é a música. É aquela composição que faz o senhorzinho lembrar da família distante, aquela música gospel que dá a esperança que aquela pessoa precisa pra passar por esse momento, aquela canção que lembra tempos felizes… Nós nos apresentamos, mas quem vê o verdadeiro espetáculo somos nós! O espetáculo do poder da música e da humanidade. E a gente aprende tanto! São tantas trocas boas que acontecem! E aí pouco importa se desafinou, ou se a gente tocou a cifra simplificada do cifra club e msm assim foi errado. Fica a emoção, pra eles e pra nós. Meu maior orgulho na faculdade é fazer parte desse projeto, é sentir que tô fazendo algo significativo, além de ser um robô que faz diagnósticos e prescreve remédios.

    Talvez eu tenha dado uma fuga ao tema aí no início, mas faz parte kkkkkk

    • 21 de junho de 2020

      Linda história Ester ❤️

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